quinta-feira, 15 de abril de 2021

MARAVILHA !

 


A recomendação era para não descer do carro, mas parece que não deu. Estáva há mais de uma hora acompanhando o Monza cinza escuro na fila drive-thru para receber a segunda dose da vacina e presenciei.

A senhora idosa, com dificuldade, desceu do banco de trás, subiu a manga da blusa rendada, fechou os olhos, mantendo o ar de felicidade, e recebeu a picada salvadora. Voltou para o interior do veículo.

A acompanhante do banco dianteiro, mais jovem e portando um enorme par de óculos escuros, repetiu o procedimento, desta vez com uma vistosa blusa florida.

Por último, desceu o senhor entre os 75 e 80, com calça jeans uns dois números maior, visivelmente emocionado e, com dificuldade para dobrar a manga da camisa, recebeu a sua dose. 

Possivelmente afetados pelo tétrico noticiário do dia a dia e com certeza comovidos pelas dificuldades enfrentadas por parentes e conhecidos, a jovem senhora, possivelmente esposa, saiu abruptamente do carro e emotivamente abraçou o marido. A senhora do banco traseiro, provavelmente mãe e sogra, de forma surpreendentemente lépida, apeou do veículo e juntaram-se num grande abraço.

O senhor tentou puxar as duas enfermeiras para o abraço coletivo. Prudentemente e seguindo as regras, com toda a delicadeza do mundo, elas se esquivaram, fazendo sinal de positivo com a mão esquerda e segurando a injeção com a direita.

Mas o guarda municipal, próximo do lance, não escapou. Que alívio. Que felicidade.

Olharam para o meu carro logo atrás, imaginei que esperavam que eu juntasse à comemoração, como um grupo de jogadores festejando um gol da vitória no último minuto da prorrogação. Subi o vidro, tranquei o carro e me abaixei no banco. Escapei.

Suspiraram aliviados e confundindo as portas para retornar ao carro, o circularam por duas vezes. Juro que imaginei estar vendo uma volta olímpica.

Valeu.

Viver é Perigoso   

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