terça-feira, 2 de abril de 2019

ORGULHOSAMENTE SÓ


O japonês Hiro Onoda, com 22 anos, desembarcou em Lubang, uma ilha das Filipinas. Se viu, não quis saber da belíssima e fina areia branca das praias de Lubang, que 1944 não era ano de turismo. Comando japonês, o tenente Onoda sabia tudo de espionagem, técnicas de guerrilha, sabotagem, propaganda e artes marciais. 

Eis ao que vinha: sabotar o cais e a pista de aterrissagem que os americanos iriam usar para invadir a ilha. O seu comandante, o major Yoshimi Taniguchi, como Deus a Moisés, deu-lhe dois estritos mandamentos: em caso algum se poderia render; não podia, mesmo em desespero, suicidar-se.

Fazendo breve a longa e longínqua história: os americanos tomaram a ilha e Onoda, com três homens, internou-se na selva, sabotando, atacando e matando com a devoção e disciplina de um santo, o inquebrantável espírito de um mártir.

A imparável, cega e surda História pôs fim à guerra, em 45. O imperador rendeu-se, mas na selva de Lubang, o fortuito Onoda continuava aos tiros. Bem deixaram os americanos panfletos anunciando o fim da luta e apelando à rendição. 

Em 49, um dos soldados, Yūichi Akatsu, acaba se rendendo aos filipinos. É, para Onoda, a prova de que a guerra continuava. Caíram na selva, folhetos assinados pelo lendário general Yamashita, reconhecendo a rendição japonesa. Onoda viu neles o dedo insidioso da quinta-coluna. Olhou para os seus dois homens e, num lampejo de vaidade, declarou que estavam orgulhosamente sós. 

Em 52, o governo japonês espalha pelas florestas de Lubang cartas e fotografias dos familiares dos três soldados. Em cada linha, a treinada inteligência de Onoda descobre falsidades.

Em 54, o cabo Shoichi Shimada é abatido em combate. São agora apenas dois, comem mangas, cocos, algum animal morto. E continuam em guerra contra o mundo. Em 1972, 27 anos depois do fim da guerra, ao tentarem queimar a colheita de arroz de uma aldeia, o soldado de primeira classe Kinshichi Kozuka é morto pelas milícias camponesas.

Inabalável, Onoda prossegue a luta sozinho: o Império japonês não se rende.

Em 1974, Norio Suzuki, decide sair a procura do tenente Onoda. Infiltra-se na selva de Lubang e encontra-o. Onoda reconhece, por fim o fim da guerra, mas só aceita render-se se o seu comandante cumprir o que lhe prometeu 49 anos antes: 

- Passem dois ou dez anos, voltarei a contatar contigo.

Já civil, o comandante Taniguchi fardou-se de novo e veio libertar Onoda da sua missão.

A 9 de Março de 74, o tenente entregou uma espada, a espingarda Arisaka 99, munições e granadas de mão. Sozinho, combatera 29 anos, matando 30 pessoas, que presumira inimigos. Entregou até o punhal que a mãe lhe dera, para fazer hara-kiri se caísse nas mãos do bárbaro americano.

Regressou com 51 anos ao Japão. Trazia uma saúde de ferro e, esfregados diariamente com fibras vegetais, uns dentes tão brancos como a fina areia de Lubang.

Extraído do texto de Manuel S. Fonseca

Viver é Perigoso

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