sexta-feira, 21 de maio de 2021

DECAIMENTO DA VERDADE



Falou e disse :

"... Pazuello não fingiu que a mentira era verdade. Pazuello chamou a mentira de mentira e falou que é assim que se faz política.

Talvez esta seja a impressão que os generais tenham de políticos. Que seu trabalho é mentir. Se for, estão errados. O trabalho dos políticos é trazer à mesa as diversas correntes de opinião presentes numa sociedade e negociar as diferenças. Sim, sempre houve mentiras. Mas, quando pegos em mentiras, políticos sofriam consequências.

Quem estuda o assunto vem usando um termo – truth decay. Decaimento da verdade. Em química, decaimento é o processo pelo qual o núcleo instável de um elemento perde energia por radiação. Em biologia é o igualmente lento apodrecimento de um corpo pela ação de bactérias ou fungos. A palavra está em voga nas ciências humanas. Decaimento da verdade é quando lentamente uma sociedade deixa de ligar para a verdade, para o consenso a respeito de um conjunto básico de fatos. Já decaimento democrático é o que vivemos quando há decaimento da verdade.

Jair Bolsonaro mente. É sua prática corriqueira. Seus eleitores sabem – apenas não ligam. Para eles, é até engraçado. Mas para que a mentira se estabelecesse ao ponto de ameaçar a democracia, ela precisou antes ir lentamente se esgueirando até se legitimar. 

Na campanha dura, agressiva e canalha que foi a da eleição presidencial de 2014, Dilma Rousseff tirou Marina Silva do segundo turno com publicidade de TV que mentia. Agora, Ciro Gomes, candidato à presidência em 2022, contratou o marqueteiro que produziu aquilo para ajuda-lo a chegar ao Planalto.

Políticos estão legitimando a mentira. Alguém precisa fazer algum gesto. 

O gesto é a prisão de quem mentir sob juramento escancaradamente dentro do Congresso Nacional. Sem um gesto grande, estamos entregues ao apodrecimento da democracia acelerado pelas redes sociais. É preciso ação. O decaimento lento da verdade está em suas fases finais."

Pedro Doria

Viver é Perigoso

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