segunda-feira, 22 de março de 2021

LOUCO OU CRUEL



"...Foi só quando a perda da razão se tornou matéria de saúde que as pessoas vivendo alienadas da realidade passaram a ser objeto de cuidado dos médicos – não por acaso, alienistas. A eles passou então a incumbência de determinar se alguém em conflito com a lei teria ou não integridade mental suficiente para ser chamado às responsabilidades.

Essa pode ser uma tarefa traiçoeira para nós, psiquiatras. Claro que a linha que separa o comportamento normal do patológico às vezes é muito evidente, basta olhar que os sinais estão ali. Em outros momentos vê-se com clareza que tal linha não foi cruzada. O problema está na zona cinzenta intermediária, na qual os limites ficam borrados.

Isso acontece usualmente em situações nas quais os comportamentos são anormais, no sentido de fugir à norma, serem excêntricos, fora do padrão, mas não são claramente patológicos – não parecem ter fugido ao controle do indivíduo. O senso comum aponta para a loucura, mas na avaliação técnica faltam elementos para caracterizar o verdadeiro adoecimento psíquico.

Daí que o fulcro de tais avaliações médicas não é, nem pode ser, determinar o quão cruéis, desumanas ou mesmo genocidas são as ações do criminoso. O fundamental é determinar se tinha a compreensão de seus atos e suas consequências e, em tendo, se agiu por livre escolha. Ou seja, se sabia o que estava fazendo e se fez porque quis.

Colocar em xeque a sanidade dos líderes que cometeram crimes contra a humanidade é delicado. Entre a insanidade evidente de Nero e a crueldade explícita de Gengis Khan encontraremos outros genocidas como Adolf Hitler, cujos comportamentos são tão anormais que parecem insanos, mas que agem deliberadamente e sabem o que estão fazendo. Enquadrá-los como doentes, além do mais, é uma faca de dois gumes, pois se serve para desqualificar seus atos serve também para os eximir da responsabilidade por eles.

Nós deveríamos torcer pela sanidade dos genocidas, para que sejam plenamente responsabilizados por seus atos. Porque o desprezo à vida, a insensibilidade com o sofrimento, a indiferença com a morte, não são sinais de loucura. São sinais de alerta."

Daniel Martins de Barros
Professor colaborador do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina de São Paulo - Estadão

Viver é Perigoso

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