terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

POST COMPARTILHADO PELA UNICEF

A médica Maria Flávia Saraiva se vacinou no último dia 22 de janeiro contra a covid-19 e resolveu compartilhar o momento em sua conta no Instagram. A ideia, mais do que dividir um momento pessoal, era "dar o exemplo".


"Essa menina da primeira foto, com o lado esquerdo do corpo paralisado (olhem o bracinho torto) é a minha mãe, enquanto se recuperava da poliomielite, a paralisia infantil, há mais de 60 anos.. Nesses anos de trabalho eu nunca vi, atendi ou soube de algum caso de criança com essa doença, pois ela é considerada erradicada do país desde 1989, graças às campanhas de vacinação!" (O último caso de pólio registrado no Brasil foi em 1989, e em 1994 o país recebeu certificado de eliminação da doença)."

Ela vive em Sorocaba (SP) e trabalha como médica da família em dois municípios do interior paulista com realidades diametralmente opostas.

Indaiatuba está entre os maiores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do país, na 76ª posição entre os 5.572 municípios, enquanto Capela do Alto está quase duas mil posições abaixo.

Esta última tem cerca de 20 mil habitantes, uma população rural em sua maioria, muito desassistida e com alto índice de analfabetismo. "Às vezes é preciso desenhar a receita para o paciente", ela conta.

Nesse sentido, Maria Flávia acredita que os profissionais de saúde têm obrigação de combater a desinformação e as notícias falsas. Especialmente nos locais em que as populações têm acesso mais difícil a informação clara e de qualidade.

Mas não só. Não foram poucas as vezes em que ela teve que desmistificar nas unidades de saúde dos dois municípios as "fórmulas milagrosas" contra a covid-19 - de bicarbonato de sódio a cloroquina - que, na verdade, não têm qualquer eficácia comprovada contra a doença e, em alguns casos, podem causar efeitos colaterais ou dano à saúde dos pacientes.

Por sugestão de uma amiga, Maria Flávia marcou a Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), que há décadas lidera campanhas globais de vacinação infantil.

Poucos dias depois, a organização entrou em contato com a médica por mensagem direta e pediu permissão para reproduzir o conteúdo, com o texto traduzido para o inglês. Desde então, o post foi curtido por quase 41 mil pessoas.

Ela faz questão de responder aos colegas médicos que nos grupos de WhatsApp ou nas redes sociais defendem o uso de medicamentos sem eficácia comprovada contra covid-19 ou os que dizem que não vão se vacinar e tentam levantar dúvidas sobre os imunizantes. "Já entrei em discussões acaloradíssimas", conta.

"Mas uma coisa é receber notícia falsa do meu tio que mora no interior de Minas, outra coisa é quando vem dos próprios profissionais da saúde", ela completa.

A médica chegou a pedir demissão de um outro emprego, em meados do ano passado, por discordar da decisão da prefeitura de prescrever uma série de medicamentos sem eficácia comprovada contra a covid-19 a pacientes com a doença. Sentindo-se pressionada, a médica conta que a gota d'água aconteceu quando ela atendeu um paciente que, em sua avaliação, apresentava severos efeitos colaterais resultantes do "tratamento profilático". O homem de meia idade, diz ela, voltou à unidade de saúde dois dias depois de iniciar os medicamentos, sentindo-se pior. Ele vomitava e tinha a função do fígado alterada - um quadro claro de intoxicação medicamentosa.

"Decidi que não seria conivente com aquilo, não vou fazer o que não acredito. A medicina é uma ciência, a gente precisa de provas científicas (de que os medicamentos de fato funcionam)", diz ela, que pediu demissão depois de quatro anos no cargo.


Sobre a política do "mal não faz" abraçada por muitos daqueles que têm tomado remédios contra vermes e parasitas, por exemplo, achando que estão fazendo um tratamento profilático contra a covid, ela rebate: "Faz mal sim. Tem efeitos hepáticos muito graves."

Viver é Perigoso

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