quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

MOÇO BONITO


"E você, meu pai, do alto e acima de tudo que perdura, Maldiga, abençoe, com sua lágrima triste, eu pediria: 
Não vá tão gentilmente nessa boa noite escura, 
Raiva, raiva contra a morte da luz que fulgura " - Dylan Thomas

Um time completo entraria em campo hoje repleto de alegria. Onze cheios de admiração e gratidão. Edna, Edson, Elizabeth, Eliane, Virgínia, José, Terça, Marilena, Paulo, Regina e Luis Carlos.

O Moço Bonito, e põe bonito nisso, por dentro e por fora, estaria completando neste 17 de dezembro, 100 anos. Tomou o barco com 56 anos, ainda fora de qualquer grupo de risco.

Nasceu em Pouso Alegre. Jovem prestou serviço militar no Batalhão de Artilharia. Alistou-se como voluntário na 2ª Guerra Mundial, servindo na Artilharia de Costa no nordeste brasileiro.

Padeiro sem conseguir completar o curso primário. Conhecimento, sabedoria que jamais conseguiremos alcançar.

Casou-se com a belíssima telefonista Dina, que aos 36 anos precisou voltar para suas atividades de anjo no paraíso.

Pouco depois e com sete filhos pequenos, com o mais velho com apenas 12 anos, encontrou a Helena que o ajudou a criar todos e mais os quatro que chegaram. 

Flamenguista e pescador. Sempre na oposição. Foi Eduardo Gomes, Juscelino, Jânio, sua grande decepção e lacerdista de quatro costados. Homem sério, de bem. 

Presbítero da Iª Igreja Presbiteriana de Itajubá. Pai bravo, doce, severo e brincalhão. Provou ser possível.

Contador de histórias, inventor de causos e sentimental no extremo. Leitor diário de jornais. Cerveja só no almoço em casa. Fazia questão absoluta da presença de todos os filhos na mesa do almoço. Orgulhoso da família. Solidário e lágrimas facinhas.

Pai e suas extraordinárias histórias. Religiosamente as mesmas, porém jamais contadas do mesmo jeito. Eram aprimoradas e o impressionante, que reduzidas as palavras, ficavam mais ricas em detalhes, com as pausas maiores, suspiros e olhares ao longe.

O que judiava da gente era aquele olhar doce e marejado de lágrimas, quando no final do domingo nos despedíamos para voltar prá casa.

Lacuna em nossas vidas. Passou pela vida como um cometa. Deixou um rastro brilhante.

Não consegui assimilar todos os seus ensinamentos, quase todos vindos da melhor maneira, pelo exemplo.

Meu pai foi uma mãe para mim.

Viver é Perigoso

4 comentários:

Anônimo disse...

Linda História.
Certamente vc se tornou este homem admirável por ter tido ótimos exemplos.
Parabéns a todos.
Abs
H. Finn

Túlio Vargas disse...

Belíssimo! Como tudo que vem do coração.

Edson Riera disse...

H. Finn e Túlio

Um grande abraço e grato.

Zelador

Anônimo disse...

A "vida" dos mortos habita a memória dos vivos - Cícero
Abs. amigo
Observador da cena