sexta-feira, 13 de novembro de 2020

OUTROS TEMPOS


Desde o segundo ano na Escola de Engenharia busquei fazer estágios de férias. Sinceramente, fui descobrindo em que não gostaria de trabalhar após formado. Estive em siderúrgicas, empreiteiras, empresas de eletricidade, fábrica de elevadores e no projeto da linha norte-sul do Metro - SP.

Fui me afastando. Após a conclusão do curso tive a sorte de trabalhar na Abinee como primeiro emprego. Nada com o que tinha visto até então. Levado pelo amigo e professor, Paulo Noronha, trabalhei ao lado de outro grande amigo sãogonçalense, Wellington Etrusco.

Oportunidade única de conviver de perto com grandes empresários do País. Aprendia-se muito. 

Conheci de conversar, em 1974, o empresário Jacques Breyton, dono de uma empresa de luminárias e chaves elétricas chamada Telem (Técnicas Eletro Mecânicas S/A).

Uma pessoa cativante. 

Depois de alguns anos, já trabalhando em outra área, lendo um livro sobre a militância política da época da ditadura deparei com o nome do Sr. Jacques. Anotei e passei a pensar no assunto. Mais adiante, com o avanço da possibilidade de buscas na internet, fui descobrindo mais e mais. 

Sr. Jacques nasceu em 1921 na França, onde combateu os nazistas alemães que invadiram seu país. Em Lyon, sua cidade natal, foi um dos chefes da Resistência Francesa local e é reconhecido como um “Ancien Combatent”, velho combatente. Foi preso pela Gestapo, polícia política alemã. Torturado, nada revelou e foi libertado, em Lyon, pelas tropas americanas no final da guerra. Pela dedicação e feitos extraordinários com que atuou na área de Lyon, tinha a patente de capitão quando a França foi liberada, recebendo então a Cruz de Guerra, a Medalha da Resistência e a Legião de Honra – tudo isso aos 23 anos.

Nos anos de chumbo, no Brasil, embora fosse um industrial rico e bem sucedido, não abriu mão dos valores que o fizeram se engajar na Resistência Francesa. 

Durante toda a gestão militar instaurada pelo golpe de 1964, faria oposição ao regime. Colaborou, entre 1968 e 1969, com muitas iniciativas do movimento estudantil, inclusive o congresso da UNE em Ibiúna.

Sempre foi ligado à esquerda. Nos anos 60, fazia parte de um grupo de apoio à ALN (Ação Nacional Libertadora), emprestando sua casa na Rua Souza Ramos, 17, Vila Mariana, para reuniões e oferecendo suporte material ao grupo. 

Em 1970, foi preso e torturado pela repressão política, como membro da ALN, por ter hospedado Carlos Marighella em sua casa e participado de várias ações.  Foi torturado pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury, juntamente com Nair Benedicto, sua esposa, mãe de seus três filhos brasileiros, Ariane, Danielle e Frederic (teve também três filhos do seu primeiro casamento na França).

Ficou preso de dezembro de 1970 ao início de 1972. No presídio Tiradentes, conviveu com o historiador Jacob Gorender, a quem apoiou financeiramente durante a feitura de "O Escravismo Colonial".

No ocaso da ditadura, no final dos anos 70 e começo dos 80, Jacques, um industrial muito bem sucedido no setor metalúrgico, apoiou abertamente o movimento sindical. Para ele, não seria possível construir um mundo socialista dos seus sonhos sem a participação direta dos trabalhadores organizados. O passo seguinte foi ajudar na criação do Partido dos Trabalhadores.

Viver é Perigoso

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