segunda-feira, 21 de setembro de 2020

O MEDO DA INTELIGÊNCIA *


Comentário de colaborador do Blog. Dentro do tema, começo a crer que se manter anônimo nos comentários é sinal de inteligência.

O artigo que se segue tem mais de 25 anos. Foi escrito no extinto Jornal da Bahia (Brasil), em 1979. Mas parece que foi redigido hoje. O autor é José Alberto Gueiros.

Quando Winston Churchill, ainda jovem, acabou de pronunciar o seu discurso de estreia na Câmara dos Comuns, foi perguntar a um velho parlamentar, amigo de seu pai, o que tinha achado do seu primeiro desempenho naquela assembleia de vedetas políticas. O velho pôs a mão no ombro de Churchill e disse, em tom paternal: "Meu jovem, você cometeu um grande erro. Foi muito brilhante neste seu primeiro discurso na Casa. Isso é imperdoável. Devia ter começado um pouco mais na sombra. Devia ter gaguejado um pouco. Com a inteligência que demonstrou hoje, deve ter conquistado, no mínimo, uns trinta inimigos. O talento assusta."

E ali estava uma das melhores lições de abismo que um velho sábio pode dar ao pupilo que se inicia numa carreira difícil. A maior parte das pessoas encasteladas em posições políticas são medíocres e tem um indisfarçável medo da inteligência. Isso na Inglaterra. Imaginem aqui noutros países. Não é demais lembrar a famosa trova de Ruy Barbosa:

"Há tantos burros mandando em homens de inteligência, que às vezes fico pensando que a burrice é uma Ciência."

Temos de admitir que, de um modo geral, os medíocres são mais obstinados na conquista de posições. Sabem ocupar os espaços vazios deixados pelos talentosos displicentes que não revelam o apetite do poder. Mas é preciso considerar que esses medíocres ladinos, oportunistas e ambiciosos, têm o hábito de salvaguardar suas posições conquistadas com verdadeiras muralhas de granito por onde talentosos não conseguem passar. Em todas as áreas encontramos dessas fortalezas estabelecidas, as panelinhas do arrivismo, inexpugnáveis às legiões dos lúcidos.

Dentro desse raciocínio, que poderia ser uma extensão do Elogio da Loucura de Erasmo de Roterdam, somos forçados a admitir que uma pessoa precisa fingir de burra se quiser vencer na vida. É pecado fazer sombra a alguém até numa conversa social. Assim como um grupo de senhoras burguesas bem casadas boicota automaticamente a entrada de uma jovem mulher bonita no seu círculo de convivência, por medo de perder seus maridos, também os encastelados medíocres se fecham como ostras à simples aparição de um talentoso jovem que os possa ameaçar. Eles conhecem bem suas limitações, sabem como lhes custa desempenhar tarefas que os mais dotados realizam com uma perna nas costas, enfim, na medida em que admiram a facilidade com que os mais lúcidos resolvem problemas, os medíocres os repudiam para se defender. É um paradoxo angustiante.

Infelizmente temos de viver segundo essas regras absurdas que transformam a inteligência numa espécie de desvantagem perante a vida. Como é sábio o velho conselho de Nelson Rodrigues: "Finge-te de idiota e terás o céu e a terra”.

O problema é que os inteligentes não gostam de brilhar. Que Deus os proteja para que as cobras não os ataquem.

* JORNAL DA BAHIA - Sábado, 23/09/79

Blog: Texto espetacular. Adicionando outro conselho aos jovens, dado pelo Nelson Rodrigues: - Envelheçam.

Viver é Perigoso

6 comentários:

Anônimo disse...

Zelador,
O tema foi brilhantemente tratado em Teoria do Medalhão de Machado de Assis.
Recomendo a releitura.
Abs
H. Finn

Anônimo disse...

Simplesmente espetacular.

Anônimo disse...

A vantagem de ser inteligente e que podemos fingir que somos imbecis, enquanto que o contrário é completamente impossivel. Bom, muito bom!

Anônimo disse...

"Bolsonaro diz que novo ministro do STF tem que 'tomar cerveja' com ele". Como na indicação do PGR mais uma cooptação espúria. Nem Lula nem Dilma tiveram tanta audácia.causídico jurássico.

Anônimo disse...

Teoria do medalhão é um dos contos que mostra Machado de Assis como um crítico afiado da sociedade
brasileira no que ela tem de mais profundo: a mediocridade condecorada, a troca de favores como motor
básico das relações sociais, a hipocrisia, tudo aquilo que perduraria para além da troca de regime. O
conto é uma lição a todo homem que almeja ter prestígio, ser reconhecido pela sociedade e que elimina
qualquer expressão da subjetividade em nome da absorção ao senso comum, à opinião da maioria.
O conto não tem um narrador.
De um lado, a presença de um pai que quer projetar seus ideais frustrados de sucesso no jovem filho; de
outro lado, o filho que se sujeita a aceitar passivamente as imposições do pai, anulando-se.

Fonte: https://www.passeiweb.com/estudos/livros/teoria_do_medalhao_conto/

Anônimo disse...

Tema atualíssimo dada a carência abissal reinante nos nossos meios governamentais. Na terrinha então..... concorrência inteligente, pecado capital! observador da cena