quinta-feira, 11 de junho de 2020

CARTAS FALSAS - FAKE NEWS


CARTAS FALSAS 

Nome com que ficaram conhecidas duas cartas publicadas em 1921 no jornal carioca Correio da Manhã, contendo ofensas aos militares e a Nilo Peçanha, e atribuídas a Artur Bernardes, então presidente do estado de Minas Gerais e candidato à presidência da República. 

O escândalo que se seguiu acirrou a oposição dos militares a Bernardes, que ainda assim foi eleito em março de 1922, mas enfrentou em seu governo (1922-1926) o movimento tenentista, início de um processo de ruptura política que iria desembocar na Revolução de 1930.

A primeira carta estava datada de 3 de junho de 1921 e se referia ao marechal Hermes da Fonseca como “esse sargentão sem compostura”. Classificava o banquete em que sua candidatura à presidência fora lançada por numerosos oficiais como uma “orgia”, e dizia, a respeito dos militares: “essa canalha precisa de uma reprimenda para entrar na disciplina”. E prosseguia: “ veja se o Epitácio Pessoa, então presidente da República, mostra sua apregoada energia, punindo severamente esses ousados, prendendo os que saíram da disciplina e removendo para bem longe esses generais anarquizadores. Se o Epitácio, com medo, não atender, use de diplomacia, que depois do meu reconhecimento ajustaremos contas. A situação não admite contemporizações, os que foram venais, que é a quase totalidade, compre-os com todos os seus bordados e galões”. A segunda carta, datada de 6 de junho de 1921, referia-se a  Nilo Peçanha, como, " esse moleque é capaz de tudo". 

A partir da publicação dos documentos pelo Correio da Manhã, o assunto virou debate nacional.

As cartas publicadas pelo Correio da Manhã saíram na verdade, como depois se constatou, das mãos de Pedro Burlamaqui, Oldemar Lacerda e Jacinto Cardoso de Oliveira Guimarães. 

Oldemar obtivera o papel com o timbre do governo de Minas Gerais na Imprensa Oficial do Estado, ao visitar suas oficinas. Burlamaqui trouxera o papel para o Rio de Janeiro, e nele Jacinto escrevera as duas cartas, imitando rigorosamente a caligrafia de Artur Bernardes. 

Prontas as cartas, Burlamaqui e Oldemar, tentaram vendê-las para e parentes do marechal Hermes da Fonseca, sem conseguir. Dirigiram-se então ao próprio Artur Bernardes, propondo vendê-las por 30 contos de réis, mas receberam outra negativa. Oldemar procurou em seguida Irineu Machado, senador pelo Distrito Federal, adversário de Artur Bernardes e partidário da candidatura de Hermes da Fonseca.

Irineu Machado fez as cartas chegarem ao Correio da Manhã .

Raimundo Silva, diretor do jornal, apresentou os documentos ao cartório para serem autenticados. O cartório recusou o reconhecimento, porque achou as assinaturas “díspares”. Mas ainda assim o Correio da Manhã insistiu com veemência em sua autenticidade. 

No dia seguinte à recusa do cartório, o jornal publicou a primeira carta, e Oldemar Lacerda, com o dinheiro que recebeu do jornal, partiu para a Europa.

Em 28 de dezembro de 1921, uma comissão do Clube Militar analisou a autenticidade das cartas. O almirante Américo Basílio Silvado apresentou o resultado do trabalho, concluindo pela autenticidade das cartas. 

No início de janeiro de 1922, as cartas foram submetidas à análise de peritos ingleses, franceses e italianos. 

Na França, o perito Locard deu parecer  afirmando a autenticidade da assinatura. Na Itália, o professor Ottolenghi, da Faculdade de Direito deu um laudo opinando pela falsidade. Na Suíça, o diretor do Instituto de Ciência Política de Lausanne, Sr. Bischoff, também opinou pela falsidade. No Brasil, em 4 de fevereiro de 1922, Rui Barbosa declarou em parecer sua convicção de que as cartas eram falsas. 

Na mesma ocasião, Oldemar Lacerda, em carta aos diretores do Clube Militar, confessara a falsificação. Essa confissão não foi divulgada pelo Clube Militar.

Apesar de toda a celeuma que as “cartas falsas” provocaram, as máquinas dos partidos republicanos funcionaram na eleição de 1º de março de 1922, dando a vitória a Bernardes. 

Pouco depois das eleições, em 24 de março de 1922, Oldemar Lacerda e Jacinto Guimarães, perante um tabelião e testemunhas, confessaram que haviam falsificado as cartas. Diante dos presentes justificaram a falsificação como ato meramente político, que visava a eleger presidente da República o marechal Hermes da Fonseca, eliminando a candidatura Bernardes. 

A incompatibilidade entre as forças armadas e Bernardes criada pelas “cartas falsas” provocou reações como as revoltas tenentistas, que culminou com a Revolução de !930”.

(dados - Alzira Alves de Abreu)

Viver é Perigoso

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