domingo, 3 de novembro de 2019

ORADOR DE VELÓRIO


Um bom discurso de luto pode ter um caráter religioso, mas precisa ser discreto. Colocar-se no lugar dos parentes que acabaram de perder um ente querido é fundamental. O único pecado mortal da profissão é trocar o nome do falecido. 

O cemitério Memorial Parque da Cerejeiras, na zona sul de São Paulo, está trabalhando na formação de funcionários capazes de preparar esses discursos. Com uma tradição sólida em países como os Estados Unidos, a função de cerimonialista fúnebre ainda dá os seus primeiros passos no Brasil. Trata-se, claro, do profissional responsável por ler (e escrever) breves palavras sobre a vida de quem está partindo. Deu hoje no jornal.

No mercado, um orador fúnebre pode cobrar cachês que vão de R$ 150 a R$ 500. 

Faz-me lembrar de um conhecido político da terrinha. Tinha por gosto acompanhar todos os sepultamentos que aconteciam na cidade. Quando da hora de despedida no cemitério, não escapava; o nosso herói se aproximava, com uma mão esquerda sobre o caixão, a direita no peito e os olhos semi-cerrados, proferia um curto e emotivo discurso sobre a vida do falecido, segundo pesquisas feitas por um assessor. Foi ficando chato.

Numa tarde chuvosa, no sepultamento de um chefe de uma família correta, brava e de poucas palavras, da Boa Vista, é claro, um dos filhos do falecido, o primogênito, aproximou-se do sempre presente orador e cochichou no seu ouvido: 
- se você abrir o bico e disser uma palavra eu quebro a sua cara aqui mesmo. O político orador escapou de fininho e praticamente encerrou  a sua carreira, pois a conversa correu para as ruas.

É a vida...

Viver é Perigoso   

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