terça-feira, 1 de outubro de 2019

TUDO O QUE SOBE, DESCE


Exceto pelo mês de agosto, quando era tempo de soltar "papagaio" ou "pipa" devido aos fortes ventos, nunca fiquei sabendo ao certo o porque dos tempos bem definidos de jogar bolinha de gude, rodar pião, "tico-tico fuzilado", beti e outros menos votados. Tudo na Boa Vista, é claro. Interessante era que as meninas não participavam. No máximo lançavam longos olhares das janelas.

Passou para o história um agosto no final dos anos 50, quando o Senhor Monteiro, experiente mecânico da Willys Overland do Brasil, revendedora dos jeeps, acertou no milhar no jogo de bicho.

Como o jogo de bicho era "proibido", a sorte grande acabou dando cana. Não para ele, mas para o Senhor João, sapateiro e cambista de jogo de bicho, que influenciado por um estudante de engenharia, fixou na parede externa da sapataria uma chamativa faixa com os dizeres: " Acertada aqui a milhar". A polícia compareceu e recolheu o bicheiro. Por pouco tempo, é claro.

Voltando ao sortudo Sr. Monteiro. O bom homem, casado com a Dona Eurípedes, doceira afamada. Não tinham filhos e, por essas bandas, nem parentes.

Não é que o Sr. Monteiro resolveu fazer uma pipa usando notas de mil cruzeiros, conhecidas como cabralinas (face do Pedro Álvares Cabral) ou "abobrinha", devido a cor ?

 Aliás, não só a pipa, mas a longa rabiola de três metros. Uns bons milhares de cruzeiros no ar.

Nas imediações da Igreja São José, empinou a rica pipa com dois carretéis de linha 50. Registre-se que na época ainda não existia a burrice do cerol.

A pipa atingiu os 250 metros de altura e disparou "comendo linha" lá para os lados do Morro Chic. E a molecada correndo atrás, atravessando a linha de trem. Quanto mais corriam mais meninos engrossavam a turma. Agora não só com meninos, mas também marmanjões.

Uma lufada mais forte do vento e a linha partiu. Sacolejando docemente o objeto de desejo da pequena multidão foi caindo lá pelas bandas da Mata Sá Chica. Na época, ainda um pouco fechada.

Começou a chuva e a meninada desbravando a mata. De repente, os líderes da corrida voltam apavorados com os olhos estatelados. Pânico geral.

Passou para a crônica policial da cidade. No meio da mata jazia um corpo de um homem pendurado por uma corda numa ressequida árvore. Suicídio.

O apavoramento levou a pipa ao esquecimento. 

Quase ninguém reparou no sorriso de felicidade do Cabo Geraldo, da Polícia Militar, ajudando os companheiros a recolher o corpo.

Viver é Perigoso  

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