segunda-feira, 1 de julho de 2019

SEM O ATOR PRINCIPAL

A homenagem aconteceria no sábado à noite (20:00 horas) no Salão Paroquial, cedido gentilmente pelo generoso Padre Vicente.

Afinal, naqueles tempos, completar 70 anos era para poucos.

Foi uma maneira que os filhos, todos já casados, vizinhos e amigos, levantarem a moral e o ânimo do Sô Orlando.

Morando sozinho desde a partida definitiva e repentina da Alzira, recém-aposentado da FI (Fábrica de Armas), o Botafogo perdendo de todo mundo, nada que prestasse em nenhum dos dois canais da televisão, decepção na política com Jânio Quadros (proibiu o uso de biquine e de brigas de galo), o rádio só tocando essa chatice chamada de bossa-nova e pior, no Cine Paratodos só andava passando "bombas". 

Antigamente ter 70 anos era ser velho, ou melhor, idoso, para não ferir susceptibilidades. Hoje, são quase considerados de meia-idade. 

Seria uma belíssima festa surpresa. Arroz doce, sagu, doce de abóbora com coco, língua de sogra, queijadinhas, pasteizinhos de milho e um senhor bolo com 70 velinhas, o que obrigou a utilização de um rocambole como anexo para a fixação de todas.

Maravilha. Segredo mantido a custa de muitos beliscões na criançada.

Sábado 20:00 horas e salão lotado. Acertou-se que o vereador Silvio diria algumas palavras sobre os valores do aniversariante. O generoso padre abençoaria tudo e todos.

Hora de buscar o Sô Orlando. 

Luzes apagadas, silêncio, ronco coordenado e caneca de chá de erva cidreira na cabeceira da cama. Sono profundo.

Comentou desanimada a Alzirinha, filha mais velha, depois de uns cochichos no ouvido do pai e ligeiro chacoalhão: 

Nessa batida ele acorda só amanhã.

A festa seguiu com discursos, grapettes, crushs, guaraná rádio e cerveja antarctica faixa-azul.

Ao lado do bolo uma fotografia do Sô Orlando nos seus vinte e poucos anos, trajando sua farda de soldado.

Viver é Perigoso

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