sexta-feira, 19 de outubro de 2018

POSTE AMIGO


O povo brasileiro abomina os chamados "postes". Sinônimo de paus mandados, terceirizados políticos e que quando crianças, devem ter brincado à exaustão o tradicional "mamãe posso ir ? quantos passos ?

Mas muitos dos homens da nossa geração tiveram grandes amigos postes. Daqueles amigos de se abraçar e chorar as pitangas. Amigos excepcionais. Frios, silenciosos, sólidos e quase sempre iluminados.

Mágoas, ciúmes e mal estar geral eram despejados na solidez amiga.

Dura luta pela vida. Bailes no Diretório Acadêmico, conjunto musical  executando músicas estranhas, complicadas para dançar. Por mais esforço que se empregasse, não cabia o 2 prá lá, dois prá cá.

Tudo bem que ela aceitasse o pedido de dança daquele florzinha, afinal, educação ela tem e muita. Mas pera aí ! Toda a seleção musical ? Mais outra ? Dedinhos entrelaçados nos intervalos ? Risinhos estúpidos ? Pura pouca vergonha. E nós que íamos indo também. Quantos olhares, sorrisos... se isso já não fosse um compromisso...

O jeito era trocar dez fichas de refrigerante e outras dez de salgadinho, por seis de cerveja. Pelo clima, será muito pouco. Melhor trocar por um hi-fi e uma cuba-libre. Quer saber ? O momento estava a exigir logo seis "rabos de galo". Ah ! uma brahminha por cima para disfarçar.

Os postes situados entre o Diretório Acadêmico e a Ponte de Cimento eram todos mapeados pelos rapazes apaixonados e não correspondidos. Normal numa madrugada de domingo assistir o sol nascer abraçado com um amigo da Companhia Sul Mineira de Eletricidade, na época, identificados alfa-numericamente.

Um bom confidente da rapaziada foi o 13FH, estacionado nas proximidades do Bar do Rafaelle. 

Diálogos de mão única acontecidos: 

- Você não acha que eu sou um trouxa ?

- Você é meu amigo ou não é ? Às vezes não entendo esse seu silêncio. Seria solidariedade ?

- Já decidi: ela tratarei com todo o meu desprezo, indiferença e com aquele viadinho vai ser na porrada.

Viver é Perigoso      

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