sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

INTERVENÇÃO FEDERAL NA SEGURANÇA DO RIO DE JANEIRO


Reflexões para o futuro - Publicada no Viver é Perigoso em 28 de novembro de 2010. O futuro chegou.

Em 1993 (há 25 anos), quando da comemoração dos seus 25 anos, a revista "Veja" presenteou os seus assinantes com um livreto contendo "reflexões para o futuro", com artigos de diversas personalidades. Ontem, dando uma geral na papelada, deparei com o livreto, dei uma olhada, e anotei trecho escrito pelo Zuenir Ventura. 

"...Correndo por fora, existe uma camada geográfica e socialmente periférica, desvalorizada pela mídia, preocupação apenas de antropólogos e sociólogos e sempre vista com suspeição pela polícia. Esses milhares de jovens habitam a periferia das grandes cidades, formando um grupo literalmente marginal. Só no Rio, por exemplo, são quase 2 milhões reunindo-se todos os fins de semana para, à sua maneira, se manifestar numa furiosa comunhão feita sem palavras, de sons e gestos: os bailes funks. São conhecidos como funkeiros por causa da preferência musical, mas possuem características que reforçam um perfil de geração: inconformismo, identidade grupal, capacidade de mobilização e até uma visão particular do mundo. Admiram como heróis líderes do crime organizado, mais por desapreço a todos os outros e menos por engajamento na violência, que cultuam sobretudo simbolicamente, através de liturgias catárticas e semanais. Vestem-se com grifes caras, gostam de copiar o uniforme dos surfistas, que odeiam, e calçam Nike tipo Air. Não chegam a considerar os "caras pintadas" como inimigos, mas têm por eles um grande desprezo. quando se perguntou a um deles porque seu grupo não tinha participado das passeatas pelo impeachment do presidente Collor, a resposta foi que isso era coisa de 'mauricinhos'.
Não se conhece dessas galeras nenhuma manifestação política do tipo convencional. nem assembleias, nem passeatas, nem protestos, apenas uma rebeldia vândala e anárquica, sem consciência política ou de classe. suas demonstrações ainda não foram codificadas. A mais importante ocorreu num domingo de 1992, quando o país se espantou com as imagens que viu na televisão. Era uma espécie de paródia de mau gosto das manifestações estudantis - uma anti-passeata: o arrastão. O grupo de adolescentes que invadiu as praias da zona sul, espalhando o pânico, formava um comando de vanguarda com a mensagem da periferia. A expedição, mais lúcida que bélica, não chegou a provocar saques ou vítimas, mas um medo apocalíptico. a paranoia, a visão de uma tão aguardada invasão bárbara, transformou em ritual selvagem o que ainda era apenas coreografia da violência, diagrama de uma conquista possível, mas não imediata. Era a tomada de um território "inimigo", feita de maneira virtual e provisória, meio simbólica. como disse um dos participantes, de 16 anos, "nós só queria arrepiar os bacanas, mostrar que a praia não é só deles."
A questão para o Brasil em fase de sucessão geracional é saber se vamos continuar temendo a periferia como filho bastardo. Ela tem força real."

Zuenir Ventura 

Viver é Perigoso

4 comentários:

Solano Pierini Loureiro disse...

E passados 25 anos, pouco ou nada mudou (para melhor). Hoje observamos uma discussão ideológica insensata e infrutífera, onde para a grande maioria míope, ser politizado é adotar um discurso de militante, quando na verdade, os vícios e as mazelas do estado é que deveriam ser reconsiderados. O efeito claro e inequívoco desta involução, tudo indica, caminha para a barbárie. Amigo Zelador, bem vindo ao futuro! Realmente estamos lascados!

Edson Riera disse...

Amigo Solano -

Fico já pensando no que virá depois do lascados.

Abraço

Zelador

Anônimo disse...

O Rio e o Brasil estão pagando pelos erros cometidos por nós eleitores. Senão vejamos os governadores eleitos no Rio nos últimos anos:Chagas Freitas, Brizola, Marcelo Alencar, Moreira Franco, Benedita da Silva, Garotinho, a mulher dele e finalmente o campeão Sérgio Cabral e seu pupilo Pezão. Valha-nos Deus! Carioca de coração que votou em vários dessa turma.

Edson Riera disse...

Carioca -

Realmente, a cidade foi construída num lugar maravilhoso. Tenho na memória, mesmo tendo acompanhado de longe, que o melhor governador do Rio, nesses tempos modernos, foi o Carlos Lacerda.
O carioca está pagando caro pelo espírito gozador colocado em prática na política. Uma intervenção está muito próximo de uma humilhação, tipo: vocês não sabem e não conseguem tocar isso aí, estamos entrando e vamos dar um jeito."
Zelador