terça-feira, 13 de junho de 2017

O ENCONTRO NA TORRE


Poucas pinturas são tão arrebatadoras, se você tem um espírito romântico, como Hellelil and Hildebrand, "the meeting on the turret stairs" - 1864, cujo título iremos simplificar aqui, por razões óbvias de ordem prática, como Encontro na Torre. 

A bela obra de Frederic William Burton (1816/1900), que pertence ao acervo da National Gallery of Ireland, em Dublin, já cativou milhares de almas sensíveis – como a minha, para não ir muito longe— desde que foi exposta pela primeira vez no mesmo ano de sua criação, e, com efeito, foi eleita em 2012 como o quadro predileto dos irlandeses, o que diz muito, e bem, sobre o coração dessas pessoas crescidas no embalo da poesia de Yeats e das paisagens melancólicas de Hibernia, para não falar do The Chieftains e da chuva.

O quadro representa, com uma estranha intensidade e gosto, uma cena de uma velha balada medieval dinamarquesa, uma triste história de um amor impossível e trágico. 

A jovem Hellelil, filha de um nobre poderoso, se apaixona por um de seus doze guardas pessoais, Hildebrand, príncipe da Inglaterra, o que, pelo visto, não era, naquela época, um pedigree suficiente, pois o pai da moça se opõe radicalmente ao romance com o guarda-costas. Tanto que manda os seus sete filhos homens matarem o cavaleiro. Este, crescido em meio a dificuldades, mata em um duelo o pai e seis dos irmãos de Hellelil, poupando a vida do mais jovem, por interferência dela. No entanto, Hildebrand acaba morrendo por causa das feridas adquiridas nos embates e pouco depois acontece o mesmo com Hellelil, atingida pela compaixão. Um desastre completo, como se vê.

Para registrar essa lenda, Burton, que tomou conhecimento do poema por intermédio de uma tradução feita por seu amigo Whitley Stokes, grande especialista em estudos celtas, não escolheu os seus momentos dramáticos mais óbvios. Imaginou, sim, uma cena íntima no espaço fechado e estreito das escadarias da torre de um castelo. Ali os amantes se despedem pela última vez, de uma maneira tão comovente que é de apertar o coração. Eles não se olham. Ela vira a cabeça, compungida, e ele, vestindo uma malha de cavaleiro medieval, espada na cinta, segura o braço dela enquanto, de olhos fechados, beija calidamente a parte interna de seu antebraço, “O rosto do cavaleiro é o de um homem para quem o beijo é um sacramento. 

Encontro na torre passou por várias mãos, até ser adquirida pela irmã de Stokes, Miss Margaret McNair Stokes. Ao morrer, em 1900, legou a obra à NGI. 

Passei os últimos sete anos procurando, obsessivamente, ver a pintura original. Em vão, pois ocorre que, devido à sua fragilidade, "Encontro na Torre" só é exposta raramente e por pouco tempo e só ser vista segundas-feiras e às sextas-feiras das 11h30 às 12h30.

Algumas semanas atrás, estava feliz, pois tinha uma viagem marcada para Dublin em uma segunda-feira, a tempo de chegar no horário marcado para o encontro. Finalmente consumaríamos a nossa relação, tantas vezes adiada. Mas, então, fiquei sabendo que o quadro não seria exposto, por causa de reformas nas alas históricas do museu. Assim, decidi encarar de vez a questão e marcar um encontro formal. Entrei em contato oficialmente com o museu, apresentando-me por escrito para vários departamentos como um divulgador desapaixonado interessado em Burton e sua obra e fazendo de modo a não chamar muito a atenção. Por fim, consegui obter uma promessa vaga de que, quando eu estivesse em Dublin, veríamos o que seria possível fazer.

Assim que cheguei à cidade, telefonei para a instituição e, para minha surpresa, me disseram para ali para lá ao mais rápido possível. Sai correndo para o museu. Cheguei sem fôlego, principalmente pelo pólen que se espalhava nos jardins do Trinity College. Ali me aguardava Emma Person, do setor de imprensa, que, sem muitos preâmbulos, levou-se até uma área reservada, acessada com o uso de um crachá. Entramos em uma sala ampla, onde me aguardava a historiadora de arte e pesquisadora do museu Kathryn Milligan. Com um gesto rápido e decidido, ela abriu uma espécie de armário ou caixa grande, e Encontro na Torre surgiu em todo o seu esplendor.

Finalmente ver a obra tão amada, quase perdi os sentidos. Diante da imagem, fiquei pasmo, emocionado, trêmulo.

A cena se mostrava para mim em todo o seu esplendor, envolta por uma moldura dourada que não aparece nas reproduções. As cores eram indescritíveis; nada a ver com as réplicas, vagos arremedos daquela visão que se abria diante de meu olhar. O azul do vestido dela, o vermelho da capa do cavaleiro. Mergulhei nos detalhes. A flor desfolhada no chão. A trança. O bigodinho ruivo, quase invisível, de Hildebrand. Que maravilha !

- Quer ficar sozinho?, perguntou Milligan, gentilmente. 

Neguei com a cabeça, sem desviar o olhar. Eu seria capaz de cometer alguma besteira. Até mesmo, quem sabe, comer o quadro. 

A historiadora se colocou atrás de mim. Suavemente, quase com ternura, foi me mostrando algumas particularidades.

- O que eu mais gosto é da mão direita dela, esse triângulo de carne apoiado displicentemente sobre a malha metálica que cobre os braços dele, comentou.

Depois de algum tempo, eu disse que já era o bastante, embora pudesse permanecer ali, na frente daquele quadro, até o fim dos tempos. Guardaram-no novamente. Nem sei como saí dali.

Tomado pela melancolia do quadro, já tinha certeza, ali, de que jamais voltaria a vê-lo, pois nunca seria a mesma coisa do que aquele primeiro encontro esplendoroso - como são irreproduzíveis os amores que deixamos para trás na escadaria da torre de nossas vidas fugazes.

Jacinto Antón

Viver é Perigoso

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