quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

DEVOLVAM MEUS SONHOS !


Não lembro a data precisa, mas em algum momento no início de 1979 descobri que havia uma solução para minha vida, que parecia ter entrado em alta velocidade em uma rua sem saída. Estudante pobre sobrevivendo de crédito educativo, morando mal e comendo mal, me sentia fadado a passar ao largo da História sem sentir o gosto de ter dado uma contribuição, por minúscula que fosse, para mudar a realidade do país. Participava de passeatas pela anistia e contra a ditadura militar no Brasil; engrossava as greves estudantis e comparecia a círculos de estudos filosóficos, mas sabia que tudo aquilo só faria sentido se se transformasse em um movimento popular, sólido e consequente.

Então, junto com um grupo de amigos, que inicialmente dedicava-se à literatura, comecei a frequentar reuniões de discussão política. O objetivo último era ajudar na criação de um partido, a partir da experiência concreta nascida das bases operárias da região do ABC paulista, que com as greves do ano anterior haviam enfrentado a repressão e ganhado visibilidade para além do âmbito sindical. Tratava-se de uma novidade no mundo: uma agremiação democrática de esquerda, não comunista, cujos alicerces firmavam-se na luta efetiva por melhores condições de vida para a população em geral.

Entusiasmado, abracei a causa e tornei-me um rosto a mais nas fileiras daqueles que, acreditava, iriam arrancar os generais do poder e instalar, por meio de eleições diretas, um governo comprometido em implementar soluções para alguns dos males que estagnavam o Brasil: proporcionar educação e saúde de qualidade para todos, efetivar a distribuição da riqueza, desenvolver a economia em equilíbrio com o meio-ambiente, criar políticas de respeito aos direitos humanos e das minorias, erradicar a corrupção que minava a administração pública. Enfim, impulsionar um país mais digno, do qual pudéssemos nos orgulhar. Afinal, no dia 10 de fevereiro de 1980, o PT era fundado em ão Paulo.

Já naquele mesmo ano tive minha primeira decepção, mas como estava apaixonado pela ideia de transformar a sociedade, relevei o episódio. V., então diretor de um sindicato importante, formulou, em uma roda de amigos, uma questão ética: caso uma associada desviasse dinheiro do banco para pagar o tratamento da mãe que padecia de câncer, sua entidade a defenderia impedindo que fosse demitida por justa causa. Espantado, argumentei: Mas você estaria justificando a atitude de uma ladra. E ele: Ladra? Ladrões são os banqueiros! Exclamei, estupefato: Mas ela teria agido como uma ladra! V. insistiu que não, que ela seria apenas uma vítima do sistema, etc. Eu disse, exaltado: Para mim não é assim que se resolvem as coisas. Ela é ladra. Teria que pagar pelo roubo. Nós devemos lutar por um Estado que promova a distribuição de renda, ofereça condições para as pessoas ganharem melhor e coloque à disposição um sistema de saúde apropriado. V. me olhou com desdém. Virei as costas e vaguei, perplexo.

Em 2002, após três derrotas consecutivas, Luiz Inácio Lula da Silva chegou à Presidência da República. Em 27 de outubro daquele ano, eu estava entre os mais de 53 milhões de pessoas que comemoraram o feito histórico. Bastou um ano, entretanto, para começarem os indícios de que por trás do biombo de moralidade estendido pelo PT havia apenas o lamaçal de sempre: o empresário Waldomiro Diniz, homem de confiança do então ministro da Casa Civil, José Dirceu, deixou o governo após ser denunciado por extorquir dinheiro para a campanha eleitoral do partido. Daí para a frente, aqueles que haviam nos sinalizado para uma estrada larga de mudanças preferiram conduzir o carro alegre da história por um atalho estreito e esburacado rumo ao pântano da obscuridade onde agora estamos atolados...

Lá se foram trinta e seis anos de fundação do partido... Em seu manifesto lia-se, então: “somos um Partido dos Trabalhadores, não um partido para iludir os trabalhadores”. Todos os sonhos que alimentei, que muitos alimentaram, de transformação da sociedade, esvaneceram como a neblina se dissipa ao longo da manhã. Venceu a mentalidade de V. – venceu o pragmatismo, a falta de ética, a amoralidade, o egoísmo, a mediocridade... Perdemos todos...

Luiz Ruffato - El País

Viver é Perigoso

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