domingo, 13 de dezembro de 2015

AGONIA


ENCONTRO MARCADO


Encontro tradicional de um grupo de amigos em dezembro. 
Dos dez que iniciaram os encontros, quatro deles não estão vindo mais. Um ficou no acidente da Tam. Outro numa curva da Estrada de Santos. O mais atirado ficou nas proximidades do Parque do Ibirapuera. Atirado. O último dos quatros arriou após um golpe no fígado. Desenganado.
No decorrer dos anos juntaram ao grupo novos quatro amigos. O grupo, mesmo com o mesmo número, ficou incompleto.
Conversas e momentos mágicos. Censura implacável. Não se fala dos que partiram antes para evitar lágrimas. Não se fala de política e economia para evitar ódio.
O que eu nunca fiz na vida, foi o tema deste final de 2015.
Muitas coisas nunca fizemos na vida. Ou por questão de gosto, de caráter, de educação ou mesmo de coragem. Outras, fizemos mas tentamos esquecer de todas as maneiras. Afinal a gente ou pouquíssimas testemunhas existem. Melhor pular essa parte. É triste ficar com vergonha da gente mesmo.
O primeiro declarou: jamais fiz a unha na minha vida. Corto-as com um trim uma vez por semana e pronto. Possível.
Outro disse que nunca provou giló. Difícil, uma vez que pode ter acontecido até os seus três anos de idade e lembrar como ?
Com orgulho, o mais experiente afirmou que nunca jamais usou uma daquelas famigeradas "pochetes" que durante certa época, alguns avançados utilizavam presas à cintura.
Corajosamente, um afirmou que em tempo algum e em nenhum momento calçou uma sandália de dedos tipo havaianas. Possível.
O de óculos de grau disse que já leu a bíblia duas vezes, de Gênesis ao Apocalipse, Leu e releu uma vez, "Ulisses" do James Joyce e o livro 'Marimbondos de Fogo" do Sarney. Nunca li nehum livro do Paulo Coelho.
O mais simples do grupo afirmou, e todos acreditaram piamente, que jamais assistiu, nem pela televisão, nenhuma peripécia musical dos gêneros pagode e sertanejo universitário. Moleza.
O mais politizado, em curtas palavras, confessou: Tenho a consciência tranquila. Nunca votei em ninguém. Nunca entrei numa cabine de votação. Sempre justifiquei minha defecção.
O sempre primeiro aluno da turma estufou o peito de declarou: jamais colei em toda a minha. Nunca olhei de lado nas provas. Nunca passei cola para ninguém e nunca soube o que era copiar um relatório. Silêncio mortal.
O  nível (alcoólico) já estava alto quando o Carlos Alberto levantou-se para dizer: jamais conheci, em todos os sentidos, outra mulher que não fosse a Cleusa. PQP, essa foi dose.
Silêncio mortal. Faltava falar o cara mais brincalhão, o mais gozador, aquele que sempre levou a vida no violino. Tensão no ar.
Dando uma longa golada de Bohemia, após fisgar com um palitinho uma rodela de salaminho, murmurou olhando para o copo:
- Nunca me senti feliz.

Viver é Perigoso