segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

MOÇA BONITA

Rócio

SOB A LUZ DE VELAS



É mais fácil enganar os outros que convencê-los de que foram enganados.

Mark Twain

MELANCOLIA


Em menos de dois meses os brasileiros parecem ter passado da euforia ao desengano.
Há momentos na história de um país — neste caso, o Brasil — em que é difícil analisar um processo de transformação tão rápido porque nele se misturam diferentes fatores e imponderáveis. E é nessas circunstâncias que substantivos e adjetivos se tornam insuficientes para expressar o que arde no coração das pessoas. Precisamos recorrer mais que nunca à semântica, porque as palavras, já banalizadas e despojadas de seu significado original, não bastam.
Dizer que o Brasil vive uma crise é dizer pouco ou talvez nada. Ressaltar que os brasileiros, depois de seus dias de glória, estão hoje preocupados com todo este rosário de notícias negativas, oferecidas a cada momento pelos meios de comunicação, como os escândalos de corrupção, a crise econômica, a perda de confiança nos governantes e a desilusão com a classe política em geral, também não diz tudo.
Que palavra extrair do dicionário para explicar o que palpita neste momento na maioria dos brasileiros, que começam a ver, incrédulos, como são fustigados pela falta de água, de energia, de esperança no futuro, pelo medo de perder o que têm e até o emprego?
Como definir o que sente a grande massa dos trabalhadores honrados, das pessoas e famílias decentes, dos que ainda não perderam os valores essenciais da vida e desejam inculcá-los em seus filhos, enquanto veem desfilar a trágica procissão de corruptos de alto coturno, os que até ontem se acreditavam intocáveis e para quem a mentira é somente um jogo permitido aos grandes?
Atrevo-me a dizer que os brasileiros neste momento, mais que raiva e rebeldia, sentem este tipo de tristeza, já analisada por gregos e romanos, chamada melancolia, que Freud analisou como um “processo de luto sem a perda do objeto”.
A melancolia, analisada ao longo do tempo, é um vocábulo polissêmico, com muito significados, mas todos eles giram em torno de um mesmo conceito, que engloba de uma vez tristeza, cansaço, amargura, falta de entusiasmo e também desinteresse.
E tem um gosto amargo como a bile, à qual os antigos se referiam para descrever o estado de ânimo melancólico.
Até quase nada de tempo os brasileiros estavam convencidos de que sua vida iria melhorar. De repente se deparam com um futuro incerto, com anúncio de recessão econômica e com uma indústria em crise, demitindo milhares de trabalhadores.
Há apenas alguns meses, milhões de brasileiros marcaram nas urnas, democraticamente, seu voto para reeleger presidenta da República Dilma Rousseff, considerada uma das mulheres mais poderosas do mundo.
E agora, segundo a recente pesquisa do Datafolha, somente 23% aprovam sua gestão, o menor índice de um presidente nos últimos 25 anos. A presidenta, que em seu primeiro mandato surpreendeu por sua disposição para rechaçar a corrupção e chegou a afastar de seu Governo seis ministros herdados dos governos gloriosos de seu antecessor, o popular e carismático Lula da Silva, hoje é vista por cerca de 77% como sabedora do escândalo de corrupção da Petrobras, e 52% a consideram conivente com a mencionada corrupção.
Há mais: 46% dos brasileiros consideram que Rousseff mentiu durante a campanha eleitoral, 54% a consideram falsa, 47%, desonesta, e 50%, indecisa.
Volúveis os brasileiros ou desenganados de seus políticos?
Não existe neste momento um movimento de massa que peça a saída da presidenta; não há som de sabres nem as pessoas começaram a sair às ruas. Tampouco se percebe algum movimento revolucionário.
O que sentem então os brasileiros? Por ora, desgosto, melancolia, desencanto e talvez até medo, já que ninguém se atreve a profetizar onde desembocam os rios da melancolia. Por enquanto, as pessoas comuns puseram de lado seu estado de melancolia para se permitir o parêntese do carnaval, cuja força de desintoxicação das penas acumuladas continua a ser mais forte que todas as tristezas e cansaços existenciais.
E depois? Talvez nada, ou talvez tudo. Os brasileiros sempre terminam surpreendendo por sua atávica capacidade de se arrumar na vida seja como for.
Melancolia e esperança continuarão a conviver neste momento no coração dos brasileiros, que já viveram tempos piores.
Juan Arias - El País
Recorte Viver é Perigoso