terça-feira, 9 de dezembro de 2014

LOVE LETTER

Escrever cartas não era para os fracos.
Itajubá virgula. A data, o mês, que nunca entendi a razão de ser minúsculo e ano.
O negócio começava a se complicar no tratamento dispensado. Querida era pouco. Amada era muito. Prezada, nem pensar. 
Mostrava decisão colocar o nome sozinho, direto e sem delongas. 
E a letra ? Folha sem pauta provocava subidas e descidas abruptas. Podia pegar mal.
Por garranchos cometidos perdiam-se amores.
Erros grosseiros poderiam ser evitados. Sempre foi melhor evitar o uso de crases. Legislação sobre o assunto é complicada.
Jamais, jamais mesmo começar com o banal "Escrevo-lhe está esperando encontrá-la...".
Perigoso terminar com um beijo e muito menos, "Do sempre seu...". Papel dura muito tempo e pode acontecer um revertere no relacionamento.
Importante o envelope com bordas em verde e amarelo. Dava ideia de transporte aéreo.
Importante: toda a vizinhança ficava sabendo da chegada da missiva. Primeiro, o Carteiro berrava no portão: "Carta para a...". Todos curiosos para saber de quem vinha (não era obrigatório colocar o nome do remetente. Cep também não existia)
Leitura ? sómente a sós. Vigiada de longe pelos curiosos.
Ou choro ou risos acompanhados de saltos.
Ler, reler, ler, reler.
Ah! uma gotinha de perfume solta distraidamente no papel provocava enorme efeito. À noite, é claro, iria dormir debaixo do travesseiro.
Um dia ele criou coragem e se declarou através de uma longa, pensada, reescrita e desenhada cartinha.
Disfarçadamente, se é que fosse possível, passau pelo Correio na Rua Nova, deu uma molhada lambida dos dois selinhos e a depositou no cata-carta.
Subiu em direção a praça principal, na certa esperando cruzar com a donzela, como sempre, nas proximidades da "A Liberty".
Realmente aconteceu. Melhor não tivesse acontecido. Não presenciaria a tragédia de vê-la de mãos dadas com aquele bixiguento com a fedida blusa da engenharia nas costas.
A carta ! Meu Deus, a carta !
Voltou correndo e solicitou a sua devolução, negada de imediato pela sizuda senhora.
Drama. Foi informado que o malote tinha acabado de seguir por trem para Pouso Alegre.
Só podia ser engano, a moça é daqui mesmo. Mora ali na Miguel Braga, na Boa Vista.
Burocracia e burrice. A distribuição é regional. Precisa ir até Pouso Alegre e voltar para ser distribuida. No ir e vir podem ser contabilizados cinco dias úteis.
PQP ! e agora ?
Continua no próximo capítulo.
 
Viver é Perigoso


   

MOÇA BONITA

Lily

DIA DE COMBATE À CORRUPÇÃO